Orquídeas do mato? Tô fora!

10 de maio de 2010

Cattleya labiata

Alvo da coleta predatória, a Cattleya labiata, presente nas serras cearenses, é uma das espécies ameaçadas de extinção (clique na foto para ampliar).

A Associação Cearense de Orquidófilos condena com veemência a compra de orquídeas retiradas da natureza. A seus associados, a ACEO aconselha a aquisição em bons orquidários comerciais, onde se tem garantia de que encontraremos plantas saudáveis, de boa qualidade, reproduzidas legalmente, em laboratório.

Há um motivo fundamental para todo orquidófilo consciente recusar a “planta do mato”. Trata-se de uma atitude eticamente condenável e inspirada em puro egoísmo. Se todos resolvessem coletar orquídeas na mata, em breve não haveria mais orquídeas. Nem mata, pois os ecossistemas são frágeis e o desaparecimento de uma espécie pode determinar o fim de todo o conjunto. A orquidofilia está intimamente associada à causa ecológica e todo cultivador de orquídeas deve ser, acima de tudo, um defensor do meio ambiente. Na ACEO, defender a natureza não é apenas figura de retórica, tem que ser uma prática.

Vem agora outra questão: a coleta na natureza, transporte e comercialização de orquídeas assim obtidas são atos criminosos, para os quais se prevê punição. De acordo com a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, em seu Art. 48, “receber ou adquirir, para fins comerciais ou industriais, madeira, lenha, carvão e outros produtos de origem vegetal (…)” é crime passível de detenção, de seis meses a um ano, e multa.

No parágrafo único do mesmo artigo, observa-se que “incorre nas mesmas penas quem vende, expõe a venda, tem em depósito, transporta ou guarda madeira, lenha, carvão e outros produtos de origem vegetal, sem licença válida (…)”. Embora não se refira especificamente às orquidáceas, a legislação abrange essa família. E surge um agravante no Art. 53, onde se prevê que a pena será aumentada de um sexto a um terço, caso se trate de espécie rara ou ameaçada de extinção. Isto significa que quem vende ou compra Cattleya labiata (espécie em extinção) retirada diretamente de nossas matas está cometendo um crime ambiental sobre o qual pesam agravantes.

Mas não é esse o único motivo pelo qual a ACEO se posiciona formalmente contra o comércio de plantas coletadas em meio silvestre. Além de se tratar de uma prática criminosa, comprar planta do mato é colocar em perigo a saúde de todo o orquidário. Esse material, em sua quase totalidade, está infestado de fungos, líquens, até mesmo bactérias e diferentes pragas, constituindo-se, ao mesmo tempo, em plantas feias, com folhas e pseudobulbos marcados e cobertas de raízes de pteridófitas. Ao contrário das excelentes plantas de orquidário, cultivadas a partir de cuidadosa seleção e criteriosos cruzamentos, é praticamente impossível, hoje em dia, encontrar-se uma Cattleya labiata retirada da mata e que não seja de péssima qualidade estética.

Se alguém compra “orquídea do mato” porque esta é um pouco mais barata, está caindo em ledo engano. Eis aí um barato que sai caro, porque, além de contaminar o orquidário com pragas e doenças, essa planta tem grandes possibilidades de ela própria fenecer em pouco tempo, uma vez que não contará com as defesas que lhe permitiam sobreviver em seu ambiente natural.

Em publicação recentemente lançada pelo IBAMA (tradução de Pictorial Guide – Differentiation of wild collected and artificially propagation of orchids), são repertoriados vários aspectos que permitem diferenciar uma orquídea coletada em meio silvestre daquela reproduzida artificialmente. Seguem-se algumas dessas características:

Plantas coletadas: muitas raízes crescendo na mesma direção; muitas raízes mortas e com pedaços de casca de árvore; ponta das raízes frequentemente danificadas; número desequilibrado de folhas e raízes; cápsulas de sementes presas às plantas; as folhas são sujas e geralmente não apresentam aspecto saudável, por causa de líquens e por estarem desidratadas e/ou contaminadas por fungos; muitos pseudobulbos mortos e outros sem as folhas ou danificados.

Plantas obtidas por propagação artificial: raízes crescendo de acordo com o formato do vaso; resíduos do material de propagação; quantidade equilibrada de folhas e raízes; ausência de bainhas secas; folhas e raízes saudáveis; plantas com formato e tamanho uniformes; flores com cores vivas.

Diante de comentários alarmistas, por vezes alguns orquidófilos se perguntam sobre a legalidade de transportar (e mesmo de possuir) orquídeas adquiridas legalmente. A engenheira florestal Lou Menezes, chefe do Orquidário Nacional do IBAMA, esclarece algumas dúvidas sobre atividades concernentes aos orquidófilos e suas coleções:

  1. O Ibama exige o registro somente dos comerciantes de orquídeas, os quais são obrigados a apresentar um cronograma de reprodução das plantas. Tal cronograma é periodicamente controlado através do levantamento das plantas – suas espécies e variedades.
  2. Os orquidófilos, além de não serem obrigados ao registro no IBAMA, são senhores de suas coleções, podendo ou não realizar reproduções das plantas, mas nunca sendo considerados produtores legalizados.
  3. As plantas das coleções dos orquidófilos, devidamente tratadas em cultivo, não podem ser confiscadas por parte de autoridades competentes, pelo simples fato de serem orquídeas.
  4. As plantas poderão ser confiscadas, caso seja caracterizada a coleta de plantas retiradas das matas e/ou pelo comércio ilegal das mesmas.

{ 8 comments… read them below or add one }

1 Emanuel Pires 10 maio, 2010 às 23:21

Excelente matéria!! Já comprei e também ganhei plantas retiradas das matas. Elas não correspondem bem com a mudança de ambiente. Resultado: com sorte somente a morte da planta, com azar a morte da planta da mata e doenças pras outras orquideas. Vale a pena investir em plantas de orquidários comerciais. EU RECOMENDO!

2 Vera Coelho 11 maio, 2010 às 19:32

Parabéns pela excelente matéria. A ACEO procura mostrar esta consciência ecológica entre seus associados. No meio Orquidófilo vez ou outra alguém diz, comprei uma planta do mato para salvá-la, já que ela ia morrer mesmo. Puro engano, é alimentar a prática de um infrator da Lei, que retira sem dó e piedade orquídeas que vegetam na natureza e vendem em beira de estradas ou fundo de quintais.
Vamos adquirir orquídeas somente de orquidário comerciais credenciados, que pagam impostos e produzem.

3 LUIS ROCHA 8 junho, 2011 às 08:47

Comprei mudas de orquideas de varios Orquidarios, somente de um tdas as orquideas morreram, as que vieram de SP que fiquei preocupado por causa do climas estão sadias e crescendo, estou iniciando o cultivo e aceito sugestões

brevemente estarei com um site

CHAPARRAL – SALVADOR-BA

4 Ada 19 julho, 2011 às 23:16

Olá!
A matéria é muito boa, vem nus alertar e orientar para a conservação de nossas orquídeas nativas, muitos até praticam esse crime por ignorância ou displicência!
Lendo essa matéria dificilmente cometerá esse ato com nossas meninas em seu habitat natural!

5 juliano tadeu 18 setembro, 2011 às 19:26

oi boa noite! eu gostaria de saber se essas orquideas que agente compra em floricultura é preciso ter licença do ibama. nao as do mato as caseiras.

6 Nila Faccin da Silva 27 novembro, 2011 às 21:31

Parabéns, tirou as minhas dúvidas!!!

7 Lurdes 22 abril, 2012 às 16:04

Parabéns pela explicação, deu um alívio!!!

8 THIAGO 25 fevereiro, 2014 às 16:33

Boa tarde!

Um amigo me disse que, em caso de salvamento, é permitido retirar orquideas nativas da mata… por exemplo… após queimada de um local….
abertura de reservatório para hidrelétrica… Isso é possível??? É permmitido???

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